acid baby

Eliminação.

No largo da rua pouco iluminada por postes velhos e acabados, ouço o tiro. O som seco e inconfundível, o estalo ensurdecedor e fatal. Primeiro, susto; o peito agita, arde, imobiliza. Torna-se minúsculo meu coração — esquece seu trabalho. Depois, o medo: e se fosse eu? Uma pancada de angústia sobre minha cabeça. Tonteio. Fui eu. O tiro foi em mim; sinto o outro, o outro me pertence— e por isso, morro. Estremeço inteira porque uma vida tão enorme quanto a minha, uma história inteira fora interrompida sem aviso. Dentro de mim, aloja-se a bala e dói também; não há consolo no egoísmo do assassinato. 

Bem posso projetar o corpo caído e sem cor; meus olhos vislumbram os olhos foscos, a boca aberta, a morte. Como pode acabar-se assim um alguém? Pisco e vai-se tudo longe: volto a encarar apenas a alameda negra. Percebo-me parada. Uma sirene dispara; haverão de buscar o cadáver, a vida reduzida a nada. Vai-se à terra, acabar-se-há no mais profundo do esquecimento. E amanhã, ao soar a notícia pela voz aveludada da mulher do noticiário, tornar-se-há um número apenas; tão natural torna-se a crueldade. Mais poderosa que a vida — a morte, tudo findando e levando para si. 

Um comentário:

♥ sinta-se à vontade, meu amor, mi casa es su casa. só lembre-se: respeito acima de tudo. ♥