acid baby

Pra aquietar a mente e o coração.

 Depois de passar alguns meses do ano passado sendo bem prejudicada pela ansiedade, acabei desenvolvendo alguns truques para afastar essa sanguessuga de mim, e isso tem me mantido ligeiramente mais estável.
 Quando ociosa, o risco de me sentir ansiosa cresce em umas dez vezes, então faço o máximo possível pra passar o tempo inteiro ocupada fazendo qualquer coisa que seja. No momento em que vejo a má sensação me rodeando, começo a me encher do que me faz bem, na esperança de que ela não me atinja de fato. Devo ser sincera e dizer que, bom, algumas vezes a tentativa é falha; a ansiedade é essa coisa arrebatadora e inesperada que muitas vezes nos deixa desarmados, mas com o tempo e experiência com as crises, tenho conseguido fazer meus métodos funcionarem e mantê-la o mais distante pelo máximo de tempo possível.
 Listei as coisas que me acalmam nesse tipo de momento porque, bom, hoje precisei dessas coisas e vai que ajuda alguém também. (: 

• Escrever.
• Banhos quentes e lentos, sentindo a água correr por cada parte do corpo...
• Ouvir músicas boas.
• Conversar com pessoas queridas sobre qualquer coisa.
• Deitar-se na cama, fechar os olhos e pensar sobre as coisas menos importantes e mais aleatórias.
• Pintar (a funcionalidade daqueles livros antiestress de pintura com lápis é real, recomendo)
• Passar hidratante no corpo (é como um carinho em si mesmo)
• Se exercitar
• Fotografar (a si e ao mundo)
• Joguinhos bobos de celular
• Chá de camomila
• Organizar coisas (estantes, gavetas, armários, agendas...)
• Olhar pinturas
• Leituras simples
• Abraçar alguém
• Chicletes
• Chorar (ajuda tanto! a gente precisa perder o medo de chorar.)

Desassossego

 A paranoia vem no mais quieto dos momentos. Num bote inesperado como o de uma serpente, torna-me vítima, prisioneira de minha mente. Envenena-me tão sutilmente. Meus olhos arregalam-se como os de um mártir assustado; a qualquer som assinto. Sufoco-me numa torturante especulação. Inverdades são sussurradas a mim por uma voz familiar, tão convincente. Como não crer em mentiras vindas do mais profundo de mim?

 A sensatez alerta-me o irreal, tenta trazer-me de volta ao sério; mas esta é tão ínfima comparada ao engano leviano do coração, tão amendrontado, tolhido, fraco. Minha cabeça sabe da verdade; meu peito não a sente. De que vale?

Natus est luna

 Resultado de imagem para moon drawing tumblr

A lua surge minguante, chama meus olhos, exibe-se só para mim; cintila em sua palidez divina. Sussurra a sina da vida, alerta-me da angústia natural dos dias; ainda assim, meu coração encolhido agradece à tarde púrpura que se despede. 

Qualquer coisa causa-me um ardor que corre latente e esplêndido por minha face; faz-me lembrar a vida que pulsa embaixo de minha pele. Sorrio em solidão. Há uma beleza deslumbrante habitando o comum das coisas. 


No padecer cotidiano, encontro minha graça.

10. Uma música que te deixe triste.

Esse é o sexto post do 30 music challenge. Clique aqui e veja meus outros posts do projeto. ♥ 

Eu não lembro quando conheci essa música, mas ela sempre deu uma angústia, mesmo não me trazendo nenhuma memória específica. É uma canção muito bonita, do tipo que nos arrepia. Eu gosto dela, mesmo passando uma certa tristeza. A voz de Nancy é encantadora (que Deus na próxima vida me faça Nancy Sinatra, amém)

bang bang, he shot me down
bang bang, that awful sound
bang bang, my baby shot me down 
seasons came and changed the time
when I grew up, I called him mine
he would always laugh and say
"remember when we used to play?"

...

 A voz me pergunta — familiar mas opaca  — sobre o andar de meus dias. Pergunta-me sobre como bate meu coração. E eu respondo, com uma sinceridade lastimosa: digo-lhe que as coisas tem até sucedido-se de forma serena; os dias têm certo brilho. Nada vai mal, na verdade. Ele me olha como quem não assimila.

 "E essa angústia, de onde vem?"

  Dou de ombros. Baixam-se minhas pálpebras cansadas sobre os grandes olhos murchos; escondo-me da resposta, dissimulo.

 "Não sei."

(Meu corpo carrega o pesar da alma desamada por quem mais quer, meu senhor; não há no mundo o que tape este rasgão). 

Cópula.

Poucas coisas são tão afáveis quanto o encostar das peles.

O calor pulsante dos corpos amantes.
A fusão atômica das carnes,
a explosão dos sentidos,
conexão energética,
cores tão vívidas.

O mover bestial e instintivo das forças,
eufóricas as bocas,
acendem-se os olhos.

Há algo de muito divino dentro do pecado.

Rage.

 Fervo em ódio. A cólera acumulada de meus dias ácidos rompe e ensurdece como uma bala sendo disparada colada aos ouvidos. 

 As dores obscurecem e somem, conseguem esconder-se no mais esquecido de minha mente. Pancadas vêm e suas consequências não são vistas no instante; enganam-me. As sinapses de meu encéfalo fazem-me crer, traiçoeiras, que minhas quedas não produziram sequelas, quando elas reúnem-se e transbordam juntas, surgindo numa desnorteante explosão, pegando-me despreparada como um soco na face. 

 Vencida e acometida pela fragilidade de uma alma lassa, aniquilada pela força da vida – encantadora e devastadora vida –, cedo, perdida. 

 Tremo em raiva, pranteio em mágoa.

Vácuo.

 O desgosto me atinge, repentino como um soco. O pesar da amargura me tira as forças, deixa-me lassa, estática, atônita. Ouço somente a mim indagando o vento “do que preciso?”; repito e repito, desesperada e histericamente. É vão. Não há sequer um ruído que sombreie um desfecho. Não há sequer o ímpeto de escrever; não há ato algum que me ocorra. Incomoda-me o som de minha voz, meu reflexo me entedia. Minhas palavras soam irrisórias.

 Não há vicissitude dentro de um cárcere arquitetado por si.

Intensidade.

 Sei ser serena, mas isto não me serve.

 O que sinto vira um grito. Meus lábios irresponsáveis emitem o barulho de meus pensamentos. Minha melancolia derrama, o meu amor explode, meu rancor estilhaça.

 A balbúrdia aguda dos sentimentos é uma música sacra que não merece ser silenciada.

Mar.

Imagem relacionada

 O fluído quente da maré me acolhe maternalmente. As gotículas acariciam minha pele, o sal me encosta os lábios. Fecho os olhos e submerjo, o corpo inteiro entregue à paz divina das ondas, saudosa por sossego. Como se as deusas sirenas sussurrassem uma ordem, a tensão constante de meus nervos é lavada, o nó eterno desata em minha garganta. Um armistício cessa minha mente por instantes. Sorrio em paz; em contato com a água, finalmente, sinto-me em casa.

Pulsação.

São tantas vozes, tantos sons, tantas cores. Minha inepta retina arde com tantos flashes. Meus tímpanos estouram com esses gritos. A pressa com que correm as coisas me deixa zonza. A voracidade deste mundo me tira o norte. 

 Toda a ansiedade desses dias há ainda de me comer viva.

Ode ao passado.

 As coisas que vivi ecoam no âmago de mim.

 Sob meus pés, posso sentir os lugares por onde passei; os impulsos do meu coração revivem tudo que senti. Quem amei ainda me emociona. Os risos que já dei ainda fazem sombra nos meus lábios. Posso sentir a umidade de cada lágrima que já rolou por esta face. Não há paixão que eu supere; não há rancor que eu me esqueça.

 Tudo segue em constante conversação, pulsando, estabelecendo conexões: meu passado me constrói.

Efêmeridade.

 Tudo torna-se improfícuo. As palavras que brado cairão no esquecimento eventualmente e todas essas páginas escritas virarão pó nos séculos que virão. As verdades que contesto, a arte que produzo, a música que danço, o chão em que piso, a cama em que amo. Sequer o ar que respiro há de continuar o mesmo. O espaço não para de se deslocar. O que aconteceu há dois segundos atrás já faz parte do meu passado. É tudo tão finito, tão findo, abalável, e eis aí onde mora o prazer e raridade da vida: nesse incomprimível e constante movimento.

Leituras dos últimos meses.



 Depois de passar um tempo sem ler direito, desde a metade do ano passado tenho tentado voltar ao ritmo e meu amor pela literatura, que antes tava um tanto quanto morno, tem voltado a ferver, e é uma sensação ótima ter de volta o meu melhor hobbie. Portanto, quis falar dos livros que li de outubro pra cá! Tenho conseguido ler mais ou menos um livro por mês e isso tem me deixado bastante feliz.

1. Outras formas de usar a boca, de Rupi Kaur: Li em outubro após ter a sorte imensa de encontrá-lo numa promoção. Muito certamente vocês conhecem a autora, que alcançou certa fama por seus poemas curtinhos e bem impactantes. Me senti muito atraída por sua obra e adorei lê-la. Pelo fato do livro ser disposto em poemas, foi uma leitura bem rápida e muito agradável. Vez ou outra abro o livro pra buscar uma poesia em especial que me esquenta o peito. É tudo muito, muito bonito.
Outros jeitos de usar a boca é um livro de poemas sobre a sobrevivência. Sobre a experiência de violência, o abuso, o amor, a perda e a feminilidade. O volume é dividido em quatro partes, e cada uma delas serve a um propósito diferente. Lida com um tipo diferente de dor. Cura uma mágoa diferente. Outros jeitos de usar a boca transporta o leitor por uma jornada pelos momentos mais amargos da vida e encontra uma maneira de tirar delicadeza deles. Publicado inicialmente de forma independente por Rupi Kaur, poeta, artista plástica e performer canadense nascida na Índia e que também assina as ilustrações presentes neste volume , o livro se tornou o maior fenômeno do gênero nos últimos anos nos Estados Unidos, com mais de 1 milhão de exemplares vendidos.

2. O Médico e o Monstro, de R.L Stevenson: Li em novembro ou dezembro do ano passado, depois do livro ter ficado por anos e anos intocado na minha estante. Comecei a lê-lo por curiosidade e pelo fato de ser um clássico e simplesmente devorei o livro. Achei que não fosse gostar tanto, mas me surpreendi demais. Cheio de mistério e muito empolgante, você simplesmente não consegue esperar pra chegar no próximo capítulo. Tem também muitas reflexões e quotes interessantíssimos, daqueles que te fazem parar no meio da página para respirar fundo e pensar naquelas palavras. Não é à toa que é considerado um clássico, é uma obra maravilhosa. Tem poucas páginas e não exige esforço pra compreender, recomendo demais a leitura. 
Poucos clássicos da literatura são tão conhecidos e adorados como O médico e o monstro, escrito em 1885. O romance foi um sucesso imediato de público e inseriu Robert Louis Stevenson no grupo dos grandes escritores da literatura universal. Ao narrar as experiências de um médico que tomou uma poção e descobriu a dualidade absoluta e primordial do homem, o autor escocês criou um suspense em que o perigo iminente não está do lado de fora, e sim do lado de dentro, na parte obscura da alma.

3. Misto-Quente, de Bukowski: Já havia lido uma vez, mas decidi fazer uma releitura em janeiro. Incrivelmente eu não me recordava de muito além de algumas partes específicas do livro, mesmo que nem faça tanto tempo que eu o lera pela primeira vez. Ler Bukowski é sempre uma experiência muito louca, que te enche de tantas sensações diversas e te causa os mais diversos pensamentos. Admiro o escritor e suas obras pela humanidade e crueza presente nas palavras. Há coisas em seu personagem que me irritam e incomodam profundamente, mas é justamente esse motivo que me mantém lendo e adorando o velho safado; isso o difere de todos os outros escritores. Foi ótimo reler Misto-Quente. Bukowski é um autor único e autêntico, todos deviam lê-lo e Misto-Quente é uma ótima maneira de conhecer sua literatura. 
O que pode ser pior do que crescer nos Estados Unidos da recessão pós-1929? Ser pobre, de origem alemã, ter muitas espinhas, um pai autoritário beirando a psicopatia, uma mãe passiva e ignorante, nenhuma namorada e, pela frente, apenas a perspectiva de servir de mão-de-obra barata em um mundo cada vez menos propício às pessoas sensíveis e problemáticas. Esta é a história de Henry Chinaski, o protagonista deste romance que é sem dúvida uma das obras mais comoventes e mais lidas de Charles Bukowski (1920-1994). Verdadeiro romance de formação com toques autobiográficos, Misto-quente (publicado originalmente em 1982) cativa o leitor pela sinceridade e aparente simplicidade com que a história é contada.

4. A Metamorfose, de Franz Kafka: Este livro apareceu aqui na minha wishlist literária e o consegui bem rápido, como podem perceber. Foi uma leitura muito rápida: comecei na quarta, terminei no sábado. É um livro curto, mas muitíssimo interessante e até curioso, que me deixou com muita vontade de seguir lendo mais obras de Kafka. É incisivo e a história corre rápido, mas tudo é passado com muita exatidão, e quando pensamos a fundo no enredo, podemos tirar muitas reflexões sobre egoísmo, insensibilidade, como o ser humano é interesseiro, entre outras coisas.
A metamorfose é a mais célebre novela de Franz Kafka e uma das mais importantes de toda a história da literatura. Sem a menor cerimônia, o texto coloca o leitor diante de um caixeiro-viajante - o famoso Gregor Samsa - transformado em inseto monstruoso. A partir daí, a história é narrada com um realismo inesperado que associa o inverossímil e o senso de humor ao que é trágico, grotesco e cruel na condição humana - tudo no estilo transparente e perfeito desse mestre inconfundível da ficção universal.