acid baby

Arkangel {4}

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Parte final.

Depois daquilo, não tornou a sair de seu quarto. Perdera totalmente a noção do tempo; estirou-se sobre a cama e as horas passavam embaçadas ante seus olhos cansados. Tudo arrastava-se, afastava-se. Mantinha próximo somente o álcool e a cafeína — as únicas companhias que o seduziam. Com isso, mal se manteve consciente. 

 A ebriedade lhe tirou o pouco juízo que restava; não compreendia se encontrava-se dormindo, se delirava ou se simplesmente experienciava a mais fustigante das realidades. Era inteiro tomado por uma imensurável dor que como um choque o percorria da nuca aos pés; o desalento transformara-se num padecer físico. Seu coração batia vagaroso e descompassado, sua fronte queimava como o inferno. A desidratação tornara seus lábios secos e feridos. Seus músculos pareciam desintegrar-se pela inatividade e sequer conseguia colocar-se de pé. Se alguém o visse em tal estado, certamente seria mais que imediatamente internado; mas isso não aconteceu. Encontrava-se em total solidão. Se um dia tanto apreciara a calmaria da ausência de pessoas e sons, agora era justo a condição de solitude que o empurrava e atirava no mais profundo e desesperador abismo. O silêncio funesto causava chiados insuportáveis aos tímpanos. Perguntava aos céus que pecado cometera para conceber tamanho martírio, mas não houve nunca a decifração da sua latente questão. 

 Às vezes seu corpo cedia à um sono breve. Sonhava com a presença de Angelina ali, com seus beijos gelados, seu timbre suave e a hirta pele de mármore; podia ouvir até seus sussurros, seus risos, suas declarações. “Voltarei para ti, meu bem”, dizia a voz adocicada, tão harmônica, enquanto punha com carinho o rosto do homem entre as tenras mãos. Ele podia sentir aquelas mãos, perfeitamente podia! Mas quando num susto despertava e abria os olhos, eufórico, nada encontrava além da vil solidão. Acorda de um desses cochilos e levanta-se num solavanco, sentindo suas pernas ineptas bambearem; quase cai, mas encontra o mínimo equilíbrio sabe-se lá de onde. O homem treme em fraqueza. Há tempos não se alimentava, tampouco hidratara-se. O corpo, um dia grande e vigoroso, agora afinava e empalidecia. 

 Recorre sem muito titubear à bebida posta ao seu lado. Dá um gole na garrafa de uísque, acabando com o pouco líquido que ali restava. Encara o recipiente esvaziado com olhos desanimados. Não queria tornar-se sóbrio; a anestesia era a condição mínima para manter-se no mundo. 

 Fita a si mesmo no espelho da penteadeira que um dia pertencera à Angel. Caminha cambaleante, aproximando-se do reflexo. Mal reconhece a si. Os olhos fundos e opacos, a pele cinzenta, a barba emergindo de sua derme, aquele aspecto quase cadavérico. Pensa que um dia fora bonito. Mas pensa também que se Angelina não estava ali para o apreciar, isso não havia sentido e tampouco importância alguma. 

 Não sabia há quanto tempo isolara-se naquele quarto e pouco lhe interessava descobrir. Queria manter-se omitido; já esquecera do trabalho, família e conhecidos. A imagem daquela que amava tomou por inteiro sua mente e era a única coisa que o excitava sobre a existência. No entanto, não esperava sua volta; compreendeu que o que ela ansiava era sua total entrega. A mulher o desejava para si, queria levá-lo com ela; ele simplesmente não poderia negar um pedido desses. 

 Na toucadora a sua frente, pega o perfume que balsamara Angel. Desde que partira, esforçara-se para deixar tudo ali intacto: seus pentes, cremes, colônias. Sequer havia tocado em nada até então; aqueles objetos o traziam efeitos incontroláveis, sentimentos dos quais pertinazmente tentava desaprender. Mas agora não mais queria fugir. Precisava trazer todas aquelas sensações de volta. 

 Pegando com sua mão livre o frasco, pôde sentir a fragrância em suas narinas. Fecha os olhos, deleitando-se naquele cheiro familiar, amadeirado, misterioso, discreto. Até o perfume consumido por Angelina era peculiar. Seus pelos se eriçam e seu coração quase parado dispara, pulsando cheio de paixão. Ele sorri abertamente. Espirra em si e no ar, para rondar-se de tão incrível aroma. O quarto cheira a desejo. Aquilo o enche de euforia; lhe dá o impulso necessário para sua entrega. 

 Num ato impulsivo, solta irresponsavelmente a garrafa vazia de uísque das mãos. O vidro estraçalha ao atingir o chão, dividindo-se em muitos pedaços irregulares e perfurando seus pés. Os cortes não lhe doem; pelo contrário, lhe arrancam uma gargalhada satisfeita. Não se preocupa em livrar-se daqueles cacos. Retira muito calmamente as calças que ainda vestia. Seu corpo continuava trêmulo; quase não conclui a tarefa de despir-se. Suas emoções vinham tão revoltas e emaranhadas que tornava-se impossível entendê-las. Uma coisa soturna, um júbilo dolorido. Tinha vontade de chorar e de gargalhar entre as lágrimas; aspirava cantar os mais belos hinos sobre o amor que sentia, mas também havia a necessidade de lançar ao mundo o grunhido colérico e escandaloso que retraía no âmago de si. Tão confuso ficou no meio da confusão de seus sentimentos que naquele momento seu rosto não pôde expressar nada. 

 Pega entre os cacos o mais fino e longíquo que encontra e no ato mais convicto de sua vida, pousa calculistamente o vidro alguns centímetros abaixo da virilha. Não hesita, sequer olha para o que sua mão perpetra; encara a o reflexo de si mesmo enquanto rompe a grossa carne de sua perna. Tinha conhecimento o suficiente para ter noção de que aquele corte era fatal. Atingiria a artéria femoral; a segunda maior do corpo. Seu rompimento esvaziaria de seu corpo a vida; junto de seu sangue, partiria também a dor. A morte lhe levaria onde queria. O sangue jorra e escorre quente por suas pernas. Seu corpo estatela-se no chão, o dorso chocando com os resquícios da garrafa quebrada. Sente, sim, um ardor, uma dor estranha; mas superior a todas essas agonias era a liberdade que sentia. 

 Consegue com um imenso esforço enxergar o rosto de Angelina bem próximo ao seu. Há um sorriso naquela face; um sorriso quase imperceptível, repleto de um sentimento tão singular que sequer poderia ser designado. Mais que nunca, tem uma aparência de anjo. Os lábios do homem entreabrem como quem vai dizer algo, mas sequer tem palavras para emitir. Passa também a sentir essa coisa desnomeada, essa onda quente que vinha com um prazer quase sexual, mas que era também clara e bonita, repleta de pureza. Como em seus devaneios, as níveas mãos femininas acariciam seu rosto num ato quase maternal. Ela aproxima-se ainda mais e une seus lábios gélidos. Podia sentir pétalas caírem sobre os corpos amantes; todas as cores reluziam dentro de seu peito fustigado. Finalmente, a paz. 

 O processo não demora; em alguns minutos, a maioria dos sentidos já se fora. Gradualmente o quarto escurece ao redor de si. Seu corpo relaxa. A sensação era de cair no mais calmo dos sonos. Finalmente: a hora de partir. 

 Tudo escurece.

 Espantosamente, fora este o melhor momento de sua vida: justo o que antecedeu sua morte.

 No rosto, pintou-se o palor da morte. Os suspiros desfalecem. O corpo tão torturado, enfim, descansara. O rosto do cadáver parecia exibir um sutil sorriso. O anjo da morte lhe entrega à sua amada.

3 comentários:

  1. Eu sempre gosto do que você escreve, sempre me deixa muito apaixonada... Será que eu já posso ler a parte 4? Esses textos separados são bem interessantes e únicos, continue escrevendo Ana!

    https://elasdizem-blog.blogspot.com.br/

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Você manda bem demais, Ana! Imagino que essa tenha sido a parte final, certo? Boa demais, de qualquer jeito. Na situação do protagonista, é provável que a morte também flutuasse diante de mim como uma escapatória bonita.

    Abraços!

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