acid baby

Arkangel {2}

Imagem de sky, moon, and stars
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 Quando a miragem se apaga, marcam 3h57 da manhã no relógio que preenchia o criado-mudo disposto ao lado da cama, junto a um copo de água e um maço caro de cigarros. Houvera um dia ali um abajur, cujo a sensibilidade à luz nos olhos de quem ocupava aquele quarto fez abandonar o ambiente. 

 A enorme lua cheia entrava por entre as cortinas azuis e era a responsável por clarear com seu pálido e sutil fulgor tanto o ambiente quanto o homem abandonado. A esse momento, sentava-se na beirada da cama, com o rosto entre as mãos, aspirando arrependimento por não ter tido a capacidade de externar sequer uma palavra do que causava a presença de Angelina, ou melhor: o que causava sua ausência. Mente pra si mesmo numa tentativa de consolação, insistindo no pensamento de que fora irreal. Intimamente sabe que não se ilude. Eram tentativas írritas. Dizem que uma farsa contada mil vezes tornava-se verdade, mas não naquele caso. Viu e sentiu a verdade de cada segundo daquele encontro fugaz; Angelina fora tão real quanto ele próprio — fora mesmo até mais real que qualquer outra experiência vivida nos últimos anos. 

 A transcendentalidade do acontecido não o deixou dormir aquela noite e também não deixaria nas noites que a sucederam. O único som escutável era o tic-tac incessante do relógio. O intervalo entre um pequeno estalo e outro mais parecia eterno; nenhuma madrugada duraria tanto quanto aquela. Para acalmar sua ansiedade, ocupa sua mão e boca com um dos cigarros do maço da mesa de cabeceira. Levanta-se, fuma, caminha por todo cômodo sem saber o que pensar. Para, encara a rua pela janela. A alameda lumiada, o deserto das calçadas, o silêncio da noite. O céu era de um tom arroxeado, decorado por constelações que rutilavam. Pensa que numa noite como esta, Angelina tomara a decisão de partir. Sumiu por quatro dias e quatro noites, sem deixar recados. Nada avisou; nenhuma carta, palavra. Nada. Não se sabia o que havia a levado. 

 Recorda que acordara numa manhã de um sábado quieto e encontrara o outro lado da cama desocupado. Não estranhou de imediato. Não eram somente os olhos que tinham características de felina: o espírito da mulher também era de gata. Nos dias livres, andava por entre parques, cafés, bibliotecas. Saía na companhia de ninguém além de si e abençoava a cidade com sua beleza. Amigos o indagavam se ele não se ofendia ou temia a liberdade da mulher; quando questionado de forma tão parva, ria. Era um dos poucos momentos que se permitia gargalhar abertamente. “Se soubessem da delícia que é viver com uma mulher livre...”, pensava, “se soubessem, vocês não seriam tão cheios de estupidez”. 

 Supôs ingenuamente que ela evitara acordá-lo e que fora buscar café. A esperou na mesa da cozinha por uma hora. Duas. Três. Na quarta, levantou-se e e foi buscar o rosto de Angelina pelos lugares que a apeteciam. Interrompeu alguns pedestres que cruzavam seu caminho, descrevendo-a, indagando-os se acaso haviam visto aquela figura. Recebeu respostas negativas todas as vezes. Passou o dia nessa pequena odisséia, andando cada vez mais inquieto e atordoado, na ânsia de encontrar quem queria. Andara e voltara por todas as ruas possíveis; buscara em todos os edifícios, de canto a canto. A pequena cidade sequer oferecia mais lugares para sua procura e a noite chegava fria. 

 Volta pra casa, frustrado por não encontrar a sombra da mulher que amava. Liga para delegacia local informando da inexplicável desaparição e tem um retorno cinco dias depois, sendo convocado para receber a notícia de que o corpo sem vida fora encontrado a cerca de seiscentos quilômetros de distância de onde morava, na cerne de um pequeno bosque. Uma facada parara seu coração. 

 As autoridades suspeitavam ter sido um suicídio, mas ele sabia. Tinha certeza do ato, porque a faca encontrada ao lado da figura apagada era a mesma faca que sumira de seu armário, cuja só dera falta no momento que reviu nas mãos do delegado, sendo exposta como prova. Era realista o suficiente para reconhecer que mesmo Angelina não expressando nenhum sinal de que havia algo de errado habitando seus pensamentos, a conhecia bem para imaginar que qualquer coisa era esperada de um alguém tão silencioso, peculiar. Ele sabia que ela era tão cheia de impulsos, desprovida de medos. Jamais conseguira prever ou antecipar seus atos. Isso sempre o causara um incômodo silenciado, que convertera-se em raiva a partir daquele trágico acontecimento. 

 Ao ouvir àquelas palavras que diziam em alto e bom som sobre a morte da única pessoa que amara nessa vida, caiu sobre si uma culpa que tinha o peso do mundo. Pensava que caso houvesse agido com um pouco mais de agilidade, talvez proferisse palavras para livrá-la daquele pensamento. Poderia tê-la impedido, quem sabe? Desejou ter ouvido os porquês daquilo. Queria ter curado aquela ferida com suas próprias mãos, a envolvido em seus braços, preservado sua vida. 

 Mas não o fez. Não teve a antecipação necessária, não foi rápido o suficiente. Não fez a previsão correta. E por isso, desde então, cultivava uma desmedida cólera sobre si mesmo. 

 Ouviu as palavras do delegado, olhou para faca que era mantida num plástico. Não soube o que dizer; e, aparentemente, o homem a sua frente também não. A expressão naquele rosto era tanto de pena quanto desconforto, mas ele não o culpava. Não devia ser uma boa experiência notificar alguém de um acontecimento daqueles. 

— Sinto muito — diz aquele desconhecido desconcertado, mesmo não sentindo nada além de pressa para sair dali. Ele apenas assente, desorientado, saindo como um vulto pela porta que entrou. 

 Não se recorda como voltou a sua casa. No caminho percorrido, estava tudo embaçado, escurecido. Os barulhos não passavam de zumbidos. Se viu um alguém conhecido durante o percurso, esse alguém fora ignoto por seu desespero. Ao chegar em casa, descalça os sapatos e desaba sobre a cama, encarando inerte o teto. Como pode algo ser tão célere como a morte? Não haveria nessa existência coisa tão ingrata, tão ordinária, tão impiedosa. Num passado recente, Angelina deitara naquela mesma cama, dormira no mesmo quarto. Andara sobre aquele chão, fumara daqueles cigarros, seu riso ecoara por aquelas mesmas paredes — paredes que foram testemunha de momentos amenos, mas que agora o faziam sentir-se claustrofóbico. Compartilharam cafés, drinques, opiniões; entregaram-se mente e corpo. Mas agora, aquela pessoa havia sumido. Reduzido-se a nada. Sua carne serviria de alimento da terra, nada mais. E em algumas décadas, sequer restariam as memórias da sua bárbara existência. O quão absurdo pode ser isso? 

 Naquele fatídico dia, ele sequer pôde chorar. Com a ida de sua amante, não restava muita coisa além de vazio. Só isso restou: um vácuo latejante instalado dentro de si, que não poderia ser ocupado com absolutamente nada, porque a melhor das coisas já havia partido. Infelizmente, o mundo não pôde esperar que se reconstituísse. No dia seguinte, lá estava ele, fazendo suas próprias trivialidades sem brilho algum. Fazia dinheiro dando aulas de Física numa universidade e sequer foi dispensado para recuperar-se do baque, já que ele e Angelina nunca foram oficialmente casados. Gostava do seu emprego e conseguiu até achar certo abrigo e sentido ali, falando sobre análise espectroscópica, mecânica quântica, física estatística e coisas do gênero. Era mais fácil falar de tudo isso que nas coisas que habitavam mais profundamente o âmago da sua mente, o que abarcava seu desconsolado coração. 

 Alguns colegas de trabalho o também afetaram-se sobre o acontecido; ele, obviamente, não conseguira falar muito sobre. Os outros respeitavam isso. Evitava o assunto. Angel — como ela foi conhecida no pequeno círculo de amizade — fizera parte também da vida de outras pessoas, e, céus, só ele próprio sabia como era complexo dialogar sobre isso! Irritava-se quando ousavam tocar no nome de sua deusa, mas recolhia seu ciúme. Queria gritar que não, eles não a conheceram de fato, que o único amor que tinha verdade e razão era o que ele sentia, que todos aqueles outros não passavam de impostores. Esse grito nunca saiu de sua garganta. Sempre fora bom em engolir as palavras, e com essas não foram diferentes. Guardara sempre o desejo de que Angelina fosse unicamente dele, mas isso nunca saiu do campo de seus sonhos. Agora, tudo que podia ansiar, mesmo que em vão, era ter sozinho suas memórias. 

 Claro, as coisas seguiram; mas jamais nada foi o mesmo para aquele homem. Aquilo lhe era insuperável. O quão torturante pode ser encontrar o suposto amor da sua vida, mas ser privado de compartilhar o resto da existência no mundo com aquela pessoa? 

 Desperta de suas reminiscências e agora o sol já começa a exibir sua divina luz. Joga num cinzeiro o cigarro que ocupava o espaço entre seus dedos e prepara-se pra mais um dia, fantasiando se, por acaso, Angelina lhe daria a honra de outra visita essa noite.

4 comentários:

  1. Eita, Ana! Que texto foi esse? Mulher do céu, eu tô extremamente abalada com isso. Não esperava o que aconteceu com a Angel. Achei lindo, cheio de quotes maravilhosos e com certeza vou salvar pra incluir numa postagem com meus textos favoritos. <3

    Beijo!
    www.controversos.com

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  2. Oi de novo! Tô passando pra contar que indiquei esse seu texto lá no blog. Espero que você não se importe, mas caso sinta que fiz errado, por favor, me avise! <3

    Beijo!
    www.controversos.com

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