acid baby

Arkangel {4}

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Parte final.

Depois daquilo, não tornou a sair de seu quarto. Perdera totalmente a noção do tempo; estirou-se sobre a cama e as horas passavam embaçadas ante seus olhos cansados. Tudo arrastava-se, afastava-se. Mantinha próximo somente o álcool e a cafeína — as únicas companhias que o seduziam. Com isso, mal se manteve consciente. 

 A ebriedade lhe tirou o pouco juízo que restava; não compreendia se encontrava-se dormindo, se delirava ou se simplesmente experienciava a mais fustigante das realidades. Era inteiro tomado por uma imensurável dor que como um choque o percorria da nuca aos pés; o desalento transformara-se num padecer físico. Seu coração batia vagaroso e descompassado, sua fronte queimava como o inferno. A desidratação tornara seus lábios secos e feridos. Seus músculos pareciam desintegrar-se pela inatividade e sequer conseguia colocar-se de pé. Se alguém o visse em tal estado, certamente seria mais que imediatamente internado; mas isso não aconteceu. Encontrava-se em total solidão. Se um dia tanto apreciara a calmaria da ausência de pessoas e sons, agora era justo a condição de solitude que o empurrava e atirava no mais profundo e desesperador abismo. O silêncio funesto causava chiados insuportáveis aos tímpanos. Perguntava aos céus que pecado cometera para conceber tamanho martírio, mas não houve nunca a decifração da sua latente questão. 

 Às vezes seu corpo cedia à um sono breve. Sonhava com a presença de Angelina ali, com seus beijos gelados, seu timbre suave e a hirta pele de mármore; podia ouvir até seus sussurros, seus risos, suas declarações. “Voltarei para ti, meu bem”, dizia a voz adocicada, tão harmônica, enquanto punha com carinho o rosto do homem entre as tenras mãos. Ele podia sentir aquelas mãos, perfeitamente podia! Mas quando num susto despertava e abria os olhos, eufórico, nada encontrava além da vil solidão. Acorda de um desses cochilos e levanta-se num solavanco, sentindo suas pernas ineptas bambearem; quase cai, mas encontra o mínimo equilíbrio sabe-se lá de onde. O homem treme em fraqueza. Há tempos não se alimentava, tampouco hidratara-se. O corpo, um dia grande e vigoroso, agora afinava e empalidecia. 

 Recorre sem muito titubear à bebida posta ao seu lado. Dá um gole na garrafa de uísque, acabando com o pouco líquido que ali restava. Encara o recipiente esvaziado com olhos desanimados. Não queria tornar-se sóbrio; a anestesia era a condição mínima para manter-se no mundo. 

 Fita a si mesmo no espelho da penteadeira que um dia pertencera à Angel. Caminha cambaleante, aproximando-se do reflexo. Mal reconhece a si. Os olhos fundos e opacos, a pele cinzenta, a barba emergindo de sua derme, aquele aspecto quase cadavérico. Pensa que um dia fora bonito. Mas pensa também que se Angelina não estava ali para o apreciar, isso não havia sentido e tampouco importância alguma. 

 Não sabia há quanto tempo isolara-se naquele quarto e pouco lhe interessava descobrir. Queria manter-se omitido; já esquecera do trabalho, família e conhecidos. A imagem daquela que amava tomou por inteiro sua mente e era a única coisa que o excitava sobre a existência. No entanto, não esperava sua volta; compreendeu que o que ela ansiava era sua total entrega. A mulher o desejava para si, queria levá-lo com ela; ele simplesmente não poderia negar um pedido desses. 

 Na toucadora a sua frente, pega o perfume que balsamara Angel. Desde que partira, esforçara-se para deixar tudo ali intacto: seus pentes, cremes, colônias. Sequer havia tocado em nada até então; aqueles objetos o traziam efeitos incontroláveis, sentimentos dos quais pertinazmente tentava desaprender. Mas agora não mais queria fugir. Precisava trazer todas aquelas sensações de volta. 

 Pegando com sua mão livre o frasco, pôde sentir a fragrância em suas narinas. Fecha os olhos, deleitando-se naquele cheiro familiar, amadeirado, misterioso, discreto. Até o perfume consumido por Angelina era peculiar. Seus pelos se eriçam e seu coração quase parado dispara, pulsando cheio de paixão. Ele sorri abertamente. Espirra em si e no ar, para rondar-se de tão incrível aroma. O quarto cheira a desejo. Aquilo o enche de euforia; lhe dá o impulso necessário para sua entrega. 

 Num ato impulsivo, solta irresponsavelmente a garrafa vazia de uísque das mãos. O vidro estraçalha ao atingir o chão, dividindo-se em muitos pedaços irregulares e perfurando seus pés. Os cortes não lhe doem; pelo contrário, lhe arrancam uma gargalhada satisfeita. Não se preocupa em livrar-se daqueles cacos. Retira muito calmamente as calças que ainda vestia. Seu corpo continuava trêmulo; quase não conclui a tarefa de despir-se. Suas emoções vinham tão revoltas e emaranhadas que tornava-se impossível entendê-las. Uma coisa soturna, um júbilo dolorido. Tinha vontade de chorar e de gargalhar entre as lágrimas; aspirava cantar os mais belos hinos sobre o amor que sentia, mas também havia a necessidade de lançar ao mundo o grunhido colérico e escandaloso que retraía no âmago de si. Tão confuso ficou no meio da confusão de seus sentimentos que naquele momento seu rosto não pôde expressar nada. 

 Pega entre os cacos o mais fino e longíquo que encontra e no ato mais convicto de sua vida, pousa calculistamente o vidro alguns centímetros abaixo da virilha. Não hesita, sequer olha para o que sua mão perpetra; encara a o reflexo de si mesmo enquanto rompe a grossa carne de sua perna. Tinha conhecimento o suficiente para ter noção de que aquele corte era fatal. Atingiria a artéria femoral; a segunda maior do corpo. Seu rompimento esvaziaria de seu corpo a vida; junto de seu sangue, partiria também a dor. A morte lhe levaria onde queria. O sangue jorra e escorre quente por suas pernas. Seu corpo estatela-se no chão, o dorso chocando com os resquícios da garrafa quebrada. Sente, sim, um ardor, uma dor estranha; mas superior a todas essas agonias era a liberdade que sentia. 

 Consegue com um imenso esforço enxergar o rosto de Angelina bem próximo ao seu. Há um sorriso naquela face; um sorriso quase imperceptível, repleto de um sentimento tão singular que sequer poderia ser designado. Mais que nunca, tem uma aparência de anjo. Os lábios do homem entreabrem como quem vai dizer algo, mas sequer tem palavras para emitir. Passa também a sentir essa coisa desnomeada, essa onda quente que vinha com um prazer quase sexual, mas que era também clara e bonita, repleta de pureza. Como em seus devaneios, as níveas mãos femininas acariciam seu rosto num ato quase maternal. Ela aproxima-se ainda mais e une seus lábios gélidos. Podia sentir pétalas caírem sobre os corpos amantes; todas as cores reluziam dentro de seu peito fustigado. Finalmente, a paz. 

 O processo não demora; em alguns minutos, a maioria dos sentidos já se fora. Gradualmente o quarto escurece ao redor de si. Seu corpo relaxa. A sensação era de cair no mais calmo dos sonos. Finalmente: a hora de partir. 

 Tudo escurece.

 Espantosamente, fora este o melhor momento de sua vida: justo o que antecedeu sua morte.

 No rosto, pintou-se o palor da morte. Os suspiros desfalecem. O corpo tão torturado, enfim, descansara. O rosto do cadáver parecia exibir um sutil sorriso. O anjo da morte lhe entrega à sua amada.

Sobre afastar-se do celular.

 Eu passei quase um mês sem celular e é incrível como eu não havia percebido até então o mal que o dispositivo me causa. Fala-se muito na ansiedade que a internet, redes sociais e afins nos trazem, mas eu, iludida, sempre me senti imune; uma falsa e traiçoeira sensação de controle da situação.
 Essa sensação vem do fato que eu, de fato, uso menos o celular que a maioria das pessoas. Tanto que ao passar esses dias sem ele, eu nem me importei muito, até porque continuei acessando grande parte das coisas pelo computador. Claro que senti falta pelas funções básicas: mensagem, ligação, câmera, alarme, bloco de notas. Bem sabemos que quase tudo que usamos para facilitar nossos dias é encontrado de forma rápida e prática naquela pequena máquina sugadora de tempo.
  Bom, não notei a diferença enquanto estava sem telefone, mas agora percebo que eu consigo ser muito mais produtiva sem ele. Li mais, vi minhas séries, fui mais rápida na academia, escrevi algumas coisas interessantes, prestei atenção nas aulas que tive. Tudo feito em absoluta calma, sem o tique de olhar o horário na tela de minuto em minuto. Não havia o tempo inteiro a preocupação de que eu tinha que responder alguém, se havia algo novo para ser visto nos feeds ou se talvez alguma notificação tinha aparecido. Ainda que eu tivesse o notebook pra checar todas essas coisas, era diferente. 
 Ter sempre o celular no bolso, te acompanhando para cima e para baixo causa um ímpeto incontrolável de estar sempre rolando a tela e checando as ininterruptas novidades. E o pior: é tudo muito inconsciente. Quase nunca percebe-se o tempo que está perdendo ali; são informações infinitas, imagens que não param de chegar, notícias de todo o mundo. É hipnotizante. É de tirar o fôlego. 
 Já devo ter citado aqui milhares de vezes minha inevitável companheira ansiedade. O mundo real por si só me causa náuseas por toda sua agitação e pressa e poluição e tormentos. Há sempre algo fazendo-me morrer por antecipação. E aí chegam essas coisas tipo internet e redes sociais e celulares e sites — que eu sei que são ótimas e são geniais, mas me deixam zonza — e torna tudo ainda mais cegante. Por todo esse tempo, fui ingênua pensando que não me deixava afetar por toda esse excesso de informação, sendo que é algo tão tóxico, contagioso e inevitável. 
 Desde que percebi o quanto isto me matava, tenho tentado me desvencilhar o máximo possível do celular. Claro que o apetrecho me é útil em várias situações e não pretendo me livrar dele justamente por isso, mas é sempre bom atentar-se a o que você consome em todos os sentidos da palavras e como isso lhe afeta.

23. Uma música que todos deviam ouvir

Esse é o quinto post do 30 music challenge. Clique aqui e veja meus outros posts do projeto. ♥ 

 Legião Urbana me acompanhou por toda minha vida, em muitos momentos. Meu pai colocava pra ouvir comigo quando era mais nova e eu achava o máximo. Me traz uma memória afetiva muito boa e é uma banda que tem um significado enorme pra mim. E essa música... O que falar dessa música? É clássica. Cada estrofe é um murro no estômago, é impossível você não acabar com um nó na garganta. Sempre que ouço essa música, tenho vontade gritá-la É tão cheia de verdade e de sentimentos. Acho que traz uma reflexão muito válida sobre o mundo que habitamos e como agimos.

quem me dera ao menos uma vez 
que o mais simples fosse visto como o mais importante 
mas nos deram espelhos 
e vimos um mundo doente 

quem me dera ao menos uma vez 
entender como um só Deus ao mesmo tempo é três 
e esse mesmo Deus foi morto por vocês 
sua maldade, então, deixara Deus tão triste

Arkangel {3}


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 Angelina — ou melhor falando: seu espectro — não surgiu na noite seguinte, tampouco nas que a sucederam. Isso não o impediu de esperá-la. Perdeu o pouco sono que lhe restava, passou cada noite depois daquela com os olhos ansiosos arregalados. Tentava disfarçar sua espera olhando a tevê ou folheando revistas antigas, mas nada ganhava sua atenção. Estava fissurado em seu retorno e pensava que sossegaria o peito apenas depois de outra visita. Suspirava de cansaço. Não entendia o porquê daquilo; depois de quatro anos, viera essa visão e lhe dera uma esperança tão letal de ter aquela presença novamente, mesmo que não por inteiro. Ficou extasiado com aquele acontecimento. Ele precisava de mais daquela sensação tão pura e tão boa de vida — sensação essa que não reconhecia há um longo tempo. Pensava em ser levado para o mundo onde aquela que amara agora habitava, mas sabia que isso não aconteceria. Certamente o local onde aquela alma fora guardada era precioso demais para um alguém tão vulgar como ele. 

 Seus dias eram baseados naquela expectativa. Seguia no circuito fechado de sua rotina, cumprindo com suas obrigações e seguindo seu roteiro. Mas o que secretamente lhe dava brilho era o enigmático segredo que mantinha consigo. Mesmo que por semanas invocasse sem respostas, mesmo que aquela espera lhe tirasse a sanidade e lhe trouxesse olheiras embaixo dos olhos; o que fomentava sua existência era aquela remota possibilidade de vislumbrar Angelina. Depois de por tantos anos viver com aquela incicatrizável e penosa chaga aberta, depois de sua volta, no latejar da ferida nasceu algo prazeroso. Ele compreendeu que era aquela dor que mantinha a mulher amada nos seus dias, viva em suas memórias; ter paz significava deixar partir seu romance onírico, e isso não lhe era uma possibilidade concebível. Decidira, então, regozijar com aquela agonia.

  Ora suas noites eram regadas a café, ora a álcool. O segundo fora o escolhido para essa madrugada em particular; tirara um uísque caro do armário para matar sua sede e sua sobriedade. Nessa mesma noite, milagrosamente, num lapso de cansaço, depois de goles e tragos, caíra num cochilo com a garrafa ao seu lado. Um sono ligeiro e leve, do qual desperta com os olhos esgazeados e se depara com aquela presença que tanto ansiou.

    O homem sorri; um sorriso ansioso e infantil que consigo trazia um resquício de susto, um ar de medo. Angelina parava em frente a lareira apagada e agora direcionava-se para uma cadeira próxima dali. Se na primeira visita encontrara-se nua, agora trajava uma espécie de manto. Uma lã fina, de tintura indescritível; não se sabia se era púrpura ou azul, mas a cor cintilava como se houvessem estrelas pregadas ao delicado tecido. 

 Um silêncio estranho se estabelece por alguns minutos. Encaram-se: ele com um riso silencioso estampado nos lábios, ela com uma expressão ilegível. Com a voz trêmula, consegue soltar as palavras que desejara. 

— É indescritível o que sinto por tê-la novamente, Angel... Sua ausência tem sido atroz todos esses anos. É uma existência miserável sem você. É bom te ver... É bom... 

 Há pausas em seu discurso, causadas pelo nervosismo da oração. Seus olhos encaram o chão enquanto fala e quando acaba, o silêncio volta a dominar o ambiente. Chega a achar que Angelina não ouvira. Depois de alguns segundos — que pareceram décadas —, torna a encarar a mulher, que tem um semblante insólito. 

— Sinto saudades também. — ela responde, num volume quase inaudível. Os olhos do outro brilham. 

— Por que foi-se embora sem dizer nada? Por que acabou com a própria vida, Angel? — pergunta num tiro, e aquelas palavras incomodam enquanto passam por sua garganta. Havia um certo temor da resposta. 

 Mais silêncio. 

 A voz feminina demora a ser ouvida. Ele senta-se na cama, com peso no corpo, esperando impaciente. Angelina caminha em passos vagarosos na sua direção; anda tão lentamente que quase flutua por aquele quarto. Imita-o, sentando ao seu lado e os dois pares de olhos negros se encontram, fitando-se. O coração do homem podia ser ouvido de tão forte que pulsava; o dela sequer batia. A morta aproxima-se, encostando os lábios no seu ouvido, demorando-se ali, o causando arrepios.

 — Eu morri para te trazer desgraça. — sussurra finalmente aquela voz desumanamente doce e vil. 

 — Achei que me amasse.

— E o amo. Mas é uma linha tão tênue que separa o amor do ódio. O amor que eu sinto deseja seu declínio e meu ódio anseia que te traga para mim. — explicou numa calma que só os loucos poderiam possuir. O outro não mais consegue olhar para a imagem de Angelina. Ele não via, mas um sorriso lúgubre escapava daqueles lábios gelados.

 Sentia-se confuso, mas sua obsessão fazia-o sentir satisfação com a simples justificativa de que aquela crueldade era passional. Repentinamente, sente imensa vontade de chorar. Não chorara sua morte, tampouco quando reapareceu para ele e também não quando passara semanas esperando em vão que ressurgisse; mas agora vinha toda essa angústia em uma só onda, lhe afogando em dor. Cobre o par de olhos marejados e cai em seu pranto. De sua garganta sai um grunhido doloroso, próprio de um animal abatido. Seus olhos chovem a água que por anos fora assiduamente guardada.

 Graças à ela, não mais diferenciava o real da fantasia. Tornara-se um mentecapto, podia ver sua sanidade correndo por entre seus dedos. Convencia a si próprio que ela perpetrara aquilo tudo pela paixão recíproca, para que permanecessem próximos, para que seguissem juntos. 

 O amor é o mais destrutivo alucinógeno; em nome dele, perdera a paz, criara o próprio inferno.

 Direciona com dificuldade os olhos molhados para a mulher do seu lado. A face que antes exibia um sorriso taciturno, agora encontrava-se com certa calma. Cruza os braços como quem espera algo e com um olhar vago observa o homem em surto por algum tempo. Depois levanta-se, dando as costas e caminhando pelo cômodo. Vai embora pela porta, sem nem olhar para trás. 

 Ele corre, tentando alcançá-la; é vão. Angelina já voltara a sumir no ar.

Arkangel {2}

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 Quando a miragem se apaga, marcam 3h57 da manhã no relógio que preenchia o criado-mudo disposto ao lado da cama, junto a um copo de água e um maço caro de cigarros. Houvera um dia ali um abajur, cujo a sensibilidade à luz nos olhos de quem ocupava aquele quarto fez abandonar o ambiente. 

 A enorme lua cheia entrava por entre as cortinas azuis e era a responsável por clarear com seu pálido e sutil fulgor tanto o ambiente quanto o homem abandonado. A esse momento, sentava-se na beirada da cama, com o rosto entre as mãos, aspirando arrependimento por não ter tido a capacidade de externar sequer uma palavra do que causava a presença de Angelina, ou melhor: o que causava sua ausência. Mente pra si mesmo numa tentativa de consolação, insistindo no pensamento de que fora irreal. Intimamente sabe que não se ilude. Eram tentativas írritas. Dizem que uma farsa contada mil vezes tornava-se verdade, mas não naquele caso. Viu e sentiu a verdade de cada segundo daquele encontro fugaz; Angelina fora tão real quanto ele próprio — fora mesmo até mais real que qualquer outra experiência vivida nos últimos anos. 

 A transcendentalidade do acontecido não o deixou dormir aquela noite e também não deixaria nas noites que a sucederam. O único som escutável era o tic-tac incessante do relógio. O intervalo entre um pequeno estalo e outro mais parecia eterno; nenhuma madrugada duraria tanto quanto aquela. Para acalmar sua ansiedade, ocupa sua mão e boca com um dos cigarros do maço da mesa de cabeceira. Levanta-se, fuma, caminha por todo cômodo sem saber o que pensar. Para, encara a rua pela janela. A alameda lumiada, o deserto das calçadas, o silêncio da noite. O céu era de um tom arroxeado, decorado por constelações que rutilavam. Pensa que numa noite como esta, Angelina tomara a decisão de partir. Sumiu por quatro dias e quatro noites, sem deixar recados. Nada avisou; nenhuma carta, palavra. Nada. Não se sabia o que havia a levado. 

 Recorda que acordara numa manhã de um sábado quieto e encontrara o outro lado da cama desocupado. Não estranhou de imediato. Não eram somente os olhos que tinham características de felina: o espírito da mulher também era de gata. Nos dias livres, andava por entre parques, cafés, bibliotecas. Saía na companhia de ninguém além de si e abençoava a cidade com sua beleza. Amigos o indagavam se ele não se ofendia ou temia a liberdade da mulher; quando questionado de forma tão parva, ria. Era um dos poucos momentos que se permitia gargalhar abertamente. “Se soubessem da delícia que é viver com uma mulher livre...”, pensava, “se soubessem, vocês não seriam tão cheios de estupidez”. 

 Supôs ingenuamente que ela evitara acordá-lo e que fora buscar café. A esperou na mesa da cozinha por uma hora. Duas. Três. Na quarta, levantou-se e e foi buscar o rosto de Angelina pelos lugares que a apeteciam. Interrompeu alguns pedestres que cruzavam seu caminho, descrevendo-a, indagando-os se acaso haviam visto aquela figura. Recebeu respostas negativas todas as vezes. Passou o dia nessa pequena odisséia, andando cada vez mais inquieto e atordoado, na ânsia de encontrar quem queria. Andara e voltara por todas as ruas possíveis; buscara em todos os edifícios, de canto a canto. A pequena cidade sequer oferecia mais lugares para sua procura e a noite chegava fria. 

 Volta pra casa, frustrado por não encontrar a sombra da mulher que amava. Liga para delegacia local informando da inexplicável desaparição e tem um retorno cinco dias depois, sendo convocado para receber a notícia de que o corpo sem vida fora encontrado a cerca de seiscentos quilômetros de distância de onde morava, na cerne de um pequeno bosque. Uma facada parara seu coração. 

 As autoridades suspeitavam ter sido um suicídio, mas ele sabia. Tinha certeza do ato, porque a faca encontrada ao lado da figura apagada era a mesma faca que sumira de seu armário, cuja só dera falta no momento que reviu nas mãos do delegado, sendo exposta como prova. Era realista o suficiente para reconhecer que mesmo Angelina não expressando nenhum sinal de que havia algo de errado habitando seus pensamentos, a conhecia bem para imaginar que qualquer coisa era esperada de um alguém tão silencioso, peculiar. Ele sabia que ela era tão cheia de impulsos, desprovida de medos. Jamais conseguira prever ou antecipar seus atos. Isso sempre o causara um incômodo silenciado, que convertera-se em raiva a partir daquele trágico acontecimento. 

 Ao ouvir àquelas palavras que diziam em alto e bom som sobre a morte da única pessoa que amara nessa vida, caiu sobre si uma culpa que tinha o peso do mundo. Pensava que caso houvesse agido com um pouco mais de agilidade, talvez proferisse palavras para livrá-la daquele pensamento. Poderia tê-la impedido, quem sabe? Desejou ter ouvido os porquês daquilo. Queria ter curado aquela ferida com suas próprias mãos, a envolvido em seus braços, preservado sua vida. 

 Mas não o fez. Não teve a antecipação necessária, não foi rápido o suficiente. Não fez a previsão correta. E por isso, desde então, cultivava uma desmedida cólera sobre si mesmo. 

 Ouviu as palavras do delegado, olhou para faca que era mantida num plástico. Não soube o que dizer; e, aparentemente, o homem a sua frente também não. A expressão naquele rosto era tanto de pena quanto desconforto, mas ele não o culpava. Não devia ser uma boa experiência notificar alguém de um acontecimento daqueles. 

— Sinto muito — diz aquele desconhecido desconcertado, mesmo não sentindo nada além de pressa para sair dali. Ele apenas assente, desorientado, saindo como um vulto pela porta que entrou. 

 Não se recorda como voltou a sua casa. No caminho percorrido, estava tudo embaçado, escurecido. Os barulhos não passavam de zumbidos. Se viu um alguém conhecido durante o percurso, esse alguém fora ignoto por seu desespero. Ao chegar em casa, descalça os sapatos e desaba sobre a cama, encarando inerte o teto. Como pode algo ser tão célere como a morte? Não haveria nessa existência coisa tão ingrata, tão ordinária, tão impiedosa. Num passado recente, Angelina deitara naquela mesma cama, dormira no mesmo quarto. Andara sobre aquele chão, fumara daqueles cigarros, seu riso ecoara por aquelas mesmas paredes — paredes que foram testemunha de momentos amenos, mas que agora o faziam sentir-se claustrofóbico. Compartilharam cafés, drinques, opiniões; entregaram-se mente e corpo. Mas agora, aquela pessoa havia sumido. Reduzido-se a nada. Sua carne serviria de alimento da terra, nada mais. E em algumas décadas, sequer restariam as memórias da sua bárbara existência. O quão absurdo pode ser isso? 

 Naquele fatídico dia, ele sequer pôde chorar. Com a ida de sua amante, não restava muita coisa além de vazio. Só isso restou: um vácuo latejante instalado dentro de si, que não poderia ser ocupado com absolutamente nada, porque a melhor das coisas já havia partido. Infelizmente, o mundo não pôde esperar que se reconstituísse. No dia seguinte, lá estava ele, fazendo suas próprias trivialidades sem brilho algum. Fazia dinheiro dando aulas de Física numa universidade e sequer foi dispensado para recuperar-se do baque, já que ele e Angelina nunca foram oficialmente casados. Gostava do seu emprego e conseguiu até achar certo abrigo e sentido ali, falando sobre análise espectroscópica, mecânica quântica, física estatística e coisas do gênero. Era mais fácil falar de tudo isso que nas coisas que habitavam mais profundamente o âmago da sua mente, o que abarcava seu desconsolado coração. 

 Alguns colegas de trabalho o também afetaram-se sobre o acontecido; ele, obviamente, não conseguira falar muito sobre. Os outros respeitavam isso. Evitava o assunto. Angel — como ela foi conhecida no pequeno círculo de amizade — fizera parte também da vida de outras pessoas, e, céus, só ele próprio sabia como era complexo dialogar sobre isso! Irritava-se quando ousavam tocar no nome de sua deusa, mas recolhia seu ciúme. Queria gritar que não, eles não a conheceram de fato, que o único amor que tinha verdade e razão era o que ele sentia, que todos aqueles outros não passavam de impostores. Esse grito nunca saiu de sua garganta. Sempre fora bom em engolir as palavras, e com essas não foram diferentes. Guardara sempre o desejo de que Angelina fosse unicamente dele, mas isso nunca saiu do campo de seus sonhos. Agora, tudo que podia ansiar, mesmo que em vão, era ter sozinho suas memórias. 

 Claro, as coisas seguiram; mas jamais nada foi o mesmo para aquele homem. Aquilo lhe era insuperável. O quão torturante pode ser encontrar o suposto amor da sua vida, mas ser privado de compartilhar o resto da existência no mundo com aquela pessoa? 

 Desperta de suas reminiscências e agora o sol já começa a exibir sua divina luz. Joga num cinzeiro o cigarro que ocupava o espaço entre seus dedos e prepara-se pra mais um dia, fantasiando se, por acaso, Angelina lhe daria a honra de outra visita essa noite.

Mãe!

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 Ontem eu assisti um dos melhores filmes que já vi: 'Mãe!'. Vocês devem ter ouvido falar dele, já que foi bastante discutido pela crítica e polarizou opiniões. É o tipo de filme que exige total atenção, mas isso não é um sacrifício: o filme te prende do começo ao fim. 
 'Mãe!' narra a história de um casal afastado da cidade, vivendo no meio do mato; há uma jovem mulher que se ocupa em restaurar a casa que fora afetada por um incêndio e seu marido, um escritor passando por um bloqueio criativo que tenta escrever uma nova obra. Os dias eram calmos até receberem a visita de um fã do trabalho do escritor acompanhado de sua mulher, e é a partir daí que começa o drama. A esposa sente-se absolutamente desconfortável com a presença do casal e uma série de eventos bizarros e extremos desenrolam a partir daí. O resumo da história, de fato, não parece nada demais. O que torna tudo extremamente genial é que, bom, o buraco é mais embaixo.
 O filme não te apresenta os fatos como são: as cenas são lotadas de simbolismos, os diálogos cheios de metáforas. O filme, em si, é uma alegoria à criação do mundo. Fala sobre idolatria, religião, traição, fanatismo e, sobretudo, o amor incondicional, passando pela criação até o caos que vivenciamos na sociedade moderna. 
 Precisamos estar atentos, decifrar o que acontece, teorizar em nossa mente. Você não compreende bem o que está rolando, mas ao mesmo tempo é perturbador. O espectador se sente dentro daquela casa, vivendo aquele cenário caótico. Sentimos todo seu desespero, a agonia presente ali. As cenas incomodam, confundem, chocam. Muitas vezes me peguei boquiaberta, com o rosto entre as mãos enquanto olhava a TV. Assisti com outras duas pessoas e a reação delas foi basicamente a mesma. É impossível não se prender ao filme. A fotografia do filme ajuda na sensação de claustrofobia, tornando tudo muito íntimo, muito próximo. A forma que foi filmado faz com que você sinta cada movimento ali. Me arrepiei do início ao fim e permaneci com um nó seco na garganta até depois do filme.
 Se você quer um filme pra relaxar no fim de semana, não assista 'Mãe!'. O filme é um tanto cansativo, vai fazer sua mente explodir e deixar você refletindo por boas horas. A complexidade da obra exige certo esforço para acompanhar, o que pode afastar e desagradar muitas pessoas, mas pra mim funcionou e muito. Com certeza está na minha lista de favoritos. 
   O assisti com o conhecimento prévio do que se tratava a história e isso me ajudou bastante a decifrar melhor o que estava acontecendo, mas ainda assim senti toda a confusão ali presente. É uma boa ter noção do que a história quer passar. 10/10

 P.S: Recomendo essas críticas que explicam bem o que o diretor quis passar: Omelete  || Carta Capital. Tem spoiler