acid baby

Autoamor


Tenho passado por uma longa jornada rumo ao auto amor — jornada essa que estou certa que durará toda minha existência. É um processo longo. Quando bem acho que está tudo ajustado, destrambelham-se ordens que pareciam bem estabelecidas, surgem crateras, vão-se certezas. São tantas questões que após serem solucionadas, refazem-se e voltam. Porque nós não somos intactos e constantes. Tampouco assim seriam nossas relações. Menos ainda a que temos com nós mesmos.

Não é exatamente sobre amor. É antes de tudo sobre aceitação, resignação. Sobre respeito pela construção que é ser. E quando você traça primordialmente essa rota, consequentemente deparar-se-há com o amor mais incondicional e sólido: o próprio. E tudo isso é um constante ajustar e desajustar. Não é sobre adorar o que se vê no espelho, sentir firmeza em todas as falas, achar-se impecável. Não. É justo sobre acolher todas as versões e fragmentos de si, incluindo os falhos —  principalmente os falhos, tendo paciência para lapidar-se sem julgar-se. 

É necessário desvencilhar-se do estigma criado de que a solidão é daninha: não é. É sobretudo nosso estado mais natural. Onde, livrando-nos de tudo mais, ouvimo-nos plenamente, enxergamos o interno, os ruídos essenciais que devem ser percebidos com atenção.  Porque apesar de o ser humano necessitar do meio social, das pessoas e do calor dos convívios para constituição de si, somos sós. Somos tudo o que temos; o maior dos amores, o maior dos perdões, a compreensão verdadeira só vem de nós para nós mesmos. Não há quem possa de conhecer inteira e intensamente uma personalidade além de seu próprio dono — que acorda e deita-se consigo, que conhece suas dores, que vê onde arde, que vive seus risos, que se tem nos braços e sabe onde tocar. A aceitação de si e dos fatos dói. E é principalmente estando só que compreende-se a si; e é compreendendo que você passa a sentir amor. É um caminho tortuoso. Mas leva à algo belo. Com essa consciência diáfana, conquista-se o mais importante: a si mesmo.  É esse o afeto mais importante, o que deve ser buscado incessantemente. Ama-te e todos os outros amores vêm leves e esvoaçantes. A solução de todos os teus problemas está dentro de ti. E eu tenho aprendido isso a cada dia e em muitos modos. Ainda bem. Tenho me esforçado nisso. E tenho caminhado. Caminhado para mim. Apesar dos pesares, de tremer de ansiedade. A solidão ainda me mete medo. Uma insegurança dolorida me toma o ar muitas vezes. Mas eu estou dando meu melhor. Porque eu sou o que mais importa. E tem funcionado. Eu sou meu maior orgulho.

Últimas leituras!

Block 

Autora de romances e contos que figuram entre os mais emblemáticos da literatura brasileira, Clarice Lispector é considerada uma das mais importantes escritoras do século XX. Sua popularidade alcançou níveis surpreendentes nas últimas décadas, especialmente após o fenômeno da internet, mas sua figura e sua obra seguem exercendo sobre leitores o mesmo e fascinante estranhamento que causaram desde sua estreia literária, em 1943. Nesta coletânea, que reúne pela primeira vez todos os contos da autora num único volume, organizado pelo biógrafo Benjamin Moser, é possível conhecer Clarice por inteiro, desde os primeiros escritos, ainda na adolescência, até as últimas linhas.
Todos os Contos, Clarice Lispector - Meu primeiro contato com Clarice e foi logo amor. Nunca estabeleci tamanha conexão com um escritor como aconteceu aqui; Clarice me tomou toda — ou fui eu quem tomou Clarice? Não sei. Sei que esse livro entrou em mim de uma forma linda e foi só estopim para que eu quisesse ler ainda mais essa mulher maravilhosa. Cheio de contos maravilhosos, é um livro que eu, definitivamente, recomendo a qualquer um. Fiz um post inteirinho sobre ele {aqui}. 

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Bentinho e Capitu são criados juntos e se apaixonam na adolescência. Mas a mãe dele, por força de uma promessa, decide enviá-lo ao seminário para que se torne padre. Lá o garoto conhece Escobar, de quem fica amigo íntimo. Algum tempo depois, tanto um como outro deixam a vida eclesiástica e se casam. Escobar com Sancha, e Bentinho com Capitu. Os dois casais vivem tranquilamente até a morte de Escobar, quando Bentinho começa a desconfiar da fidelidade de sua esposa e percebe a assombrosa semelhança do filho Ezequiel com o ex-companheiro de seminário.
Dom Casmurro, Machado de Assis - Um clássico não é um clássico sem motivos, já diria meu pai. Li Dom Casmurro pela segunda vez e esta conseguiu ser ainda melhor que a primeira; absorvi muito mais do livro, entrei muito mais nele. Decidi reler por falta do que fazer e não poderia ter feito melhor. Eu só desejava que tivesse umas duzentas páginas a mais. Dom Casmurro prende, envolve; você se torna tão próximo dos personagens que quase sente que está também naquele enredo. Machado é genial. Genial. E assim é o livro. Por fim: não! Óbvio que Capitu não traiu Bentinho! 

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Este livro conta a história do ingênuo professor Rubião, mineiro de Barbacena, que recebe como herança todos os bens do filósofo Quincas Borba, mais a incumbência de tomar conta de seu cão - também denominado Quincas Borba -, e divulgar a filosofia conhecida como Humanitismo.
Quincas Borba, Machado de Assis - Uma amiga minha me emprestou e eu li despretensiosamente; um ótimo livro! Cheio da ironia de Machado e com um enredo muito cativante. A história de Quincas Borba é muito interessante e trás muitas reflexões sobre inúmeras questões, no âmbito social e pessoal. Foi uma boa experiência literária, serviu pra me fazer admirar ainda mais Machado de Assis.  
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Lolita é um dos mais importantes romances do século XX. Polêmico, irônico, tocante, narra o amor obsessivo de Humbert Humbert, um cínico intelectual de meia-idade, por Dolores Haze, Lolita, 12 anos, uma ninfeta que inflama suas loucuras e seus desejos mais agudos. A obra-prima de Nabokov, agora em nova tradução, não é apenas uma assombrosa história de paixão e ruína. É também uma viagem de redescoberta pela América; é a exploração da linguagem e de seus matizes; é uma mostra da arte narrativa em seu auge. Através da voz de Humbert Humbert, o leitor nunca sabe ao certo quem é a caça, quem é o caçador.
Lolita, Vladmir Nabokov - Lolita é um assunto delicado. É o um dos livros mais intrigantes que já li — se não o mais. A história tem muitas nuances e traz sensações ambivalentes, simultâneas; uma explosão mental. Você se pega sendo enganado pela falácia do narrador. Você imerge completamente naquilo. Definitivamente não é uma história de amor, tampouco um livro fácil de ser lido. Mas é uma produção genial e de extrema inteligência, uma experiência sinestésica.

Ápice.


Abro-te os braços,
a mente, 
o coração.
Abro as pernas,
abro a boca,
te peço que venha,
suplico que entre.

Enche-me de teu sangue;
corra por minhas veias.
Adoeça-me com suas substâncias,
espalha-te por mim.

Perca-se no intervalo de minhas curvas,
ilógico,
tantaliza-me com teus lábios.
Mistura teus átomos aos meus;
nos torne só um.

Porque eu quero tudo.
E eu dou tudo.
O pouco não me atrai;
o meio termo não satisfaz.
Eu busco o que arde.
O que fere de tão bom.
O que grita.
O que consome.

Eu quero o ápice.

Gaia.

O vento sussurra-me bons conselhos, dá voz ao que pensam as folhas dançantes das árvores que me cercam. A terra gelada sob meus pés, espalhada entre meus dedos, parece enveredar-se por dentro de mim, constrói raízes, sustentando meu corpo, plantando-me aqui. As águas do mundo nutrem minha pele com seu frescor. O queimar pulsante do fogo traz-me à vida.

Venero à natureza porque há nela tal glória, tal força, a beatitude da maior das divindades. Fecho os olhos e sinto o cosmos. Conecto-me a tudo que minhas mãos tocam. Tudo vive. Manifesta-se. Vibra. Sinto. Tudo fala — tudo eu ouço.

Meu templo é o mundo.

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Talvez sejamos depois dois novos corpos, conhecendo-nos novamente em dias diferentes; as almas hão de reconhecer-se num novo espaço-tempo. Os olhos deverão ter este fulgor; os lábios guardarão o mesmo sabor. Procurar-te-ei em muitos mundos. Hei de esperar eternidades por você.

E quem sabe assim, meu amor, quem sabe assim — finalmente! —, nosso amor de tantas vidas seja fértil noutro solo.