acid baby

Vísceras.

Amo-te em todos os lugares — o peso do amor é excessivo para o coração. Amo-te com meus rins e pulmões; torna-te o ar que me aviva e toda a água de meu organismo delirante. Amo-te na língua, sinto-te na fragilidade da derme. Meu amor espalha-se, toma toda minha estrutura; faz-se energia atômica, vira hemoglobina. Amo-te com o estômago e com o fígado, amo com todos os órgãos e em todas as células, com todos os ossos e todas as entranhas, na forma mais visceral de amar. Guardo o sentimento mais animalesco para te apresentar.

A Enxaqueca.

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Antes, houve dias de muito deleite. Após uma semana tradicionalmente insípida de dias pecos e acinzentados, encontrou-se em ridículo estado de graça: parecia ter atingido uma soberania espiritual indizível. Acordou assim, em plena perfeição, num sábado que, apesar de enevoado e frio, pareceu-lhe muito agradável aos sentidos. Saiu da cama a passos leves, flutuou como um pássaro pelo quarto de poucos móveis, na liberdade de quem já não anseia qualquer coisa senão o estreito agora. O coração pulsava lento, quase parando, repousado num vazio deleitoso jamais experimentado. Riu alto e largo, sabia de tudo.

Sabia o quê?

Bem, só sabia que sabia.

Carregava agora um segredo no mais recôndito de seu ser, tão bem velado que escondia até de si próprio: o possuía, mas não o via. Segredo enorme, admirável, de tanta luz que encandeava e se escondia atrás de seu próprio brilho, mas que clareou toda a existência daquele homem outrora perdido. Naquele despertar, conheceu Deus —  o Deus cujo sempre duvidara se apresentou, de onipresença benigna e aura luminosa: sussurrou em seu ouvido sensível particularidades, palavras etéricas e contentes, verdades cósmicas, promessas universais. O entregou aos braços de uma paz límpida.

Naqueles dias, rodeou-se de amores, fez-se ímã para as amizades. Foram dias de beijos molhados, sóis quentes e ventos frescos. Visitou seus pais, foi a três festas, planejou uma viagem à Índia e quis casar. Os dias passavam coloridos. Parecia estar entorpecido. Até o mais maçante dos ofícios foi realizado com satisfação; cantarolava disposto pelas ruas enquanto dirigia seu corpo à labuta diária, recebida agora não com estresse, mas com ilimitada condescendência. Teve sucesso em seus feitos e esbaldou-se numa produtividade que rendeu estonteantes elogios, dos quais se gabou com ostensividade.  Discursava alto, enchia a boca de palavras rebuscadas e de sentido festivo. Estranharam-lhe os conhecidos; amigos o indagavam por qual bênção havia sido inundado e não houve quem não notasse o novo esmalte que o envernizava. Entretanto, não pôde responder as perguntas que o cercaram. Não possuía palavras para essa alegria indominável, injustificável a todos, inclusive a si. Fora sempre tão insosso e agora ardia neste sentimento aceso. Surgira repentina, intrusa e abrupta; cegou e o acompanhou como um cão guia dourado. Não incomodava-se em pensar nos porquês do sentimento; nestes momentos, poucas coisas importavam além da própria glória.

Até que tudo se dissipou. O júbilo maculou-se em tinta escura e, subitamente como a maravilha, a desgraça decidiu fazer visita. Da mesma forma inexplicável que vieram aqueles dias brilhantes, lhe apareceu, num domingo insuportavelmente ensolarado, uma dor assombrosa que arrastou sua alma ao limbo. Despertou assim, num desespero impetuoso: ergueu-se dos lençóis e pôs, numa agonia indomável, as duas mãos sobre a cabeça que parecia ser atingida por mil golpes —  queria de qualquer forma acabar com aquilo. Tornou a pender para trás: sua energia estava voltada inteira àquilo que parecia lhe possuir, não tinha meios sequer de conter seu próprio corpo. Forças pareciam se apossar de seus olhos, que ardiam como se visitassem o inferno; não podia se permitir abrir as pálpebras pesadas. Uma náusea insuportável enchia a boca inerte de saliva, fazia precipitar um vômito que não veio nunca. Pôs os dedos na garganta agoniada, buscando aliviar seu ventre ouriçado, expelir o que perturbava a ataraxia de sua vida, mas não provocou muito mais que uma tosse. Um bicho dos mais bestiais parecia se apossar de seu sistema nervoso inflamado. De lábios entreabertos, com a testa suada e lunarmente pálido, tentava, sem êxito, compreender o que o atacava.

Depois de minutos agoniados — que mais pareceram longos anos de espera —,  pôde aliviar-se minimamente, o suficiente para retirar-se da cama. Andou em pernas bambas e encarou o dia com austera dificuldade: a tudo via e sentia de forma trêmula. Quem o via naquele estado lânguido pensava ser apenas sua felicidade latejante o adormecendo, como ocorrera até o dia anterior.

Assim seguiu por alguns dias: entorpecido por uma dor quase ensurdecedora. Alguns dias, parecia esvair-se por alguns curtos momentos de apaziguamento que o faziam até sorrir num alívio exasperado da mais pura ilusão. Logo voltava a sentir um buraco negro expansivo dentro de seu crânio, acabando com seus ossos, rompendo seus tecidos, alargando-se e destruindo toda sua estrutura de homem. A dor provocava vômitos inesperados e mudanças bruscas na pressão arterial, dava vertigens, deixava-lhe lasso.

Buscou doutores e clínicas que em nada ajudaram a sair do abismo de enxaqueca que consumia suas horas; não disseram qualquer coisa os exames e investigações que foram feitos, e receitaram-lhe medicamentos que dissolviam-se como bala em sua língua, sem provocar efeito algum senão um amargor típico. Assim, arrastaram-se semanas numa rotina tortuosa, onde acordava-se e seguia como um zumbi, com um gosto ácido na garganta e um enjoo constante. Compreendia cada vez menos o que comunicavam os outros humanos, surdo por um zumbido que alterava sua audição e cego por uma pseudo-catarata que lhe embaçava o ver. Passava como um vulto, deixando os que o rondavam confusos, trancando-se numa bolha impenetrável de sofrimento, que findava por privar até ele de si próprio.

O pesar louco que o tomava era implícito e seu dono não tinha resquício de voz algum para alardar sobre o que vivia. O ouro de seus dias mostrou-se fraudulenta lataria, e o brilho deu lugar a uma opacidade enferrujada. Não ousaria oxidar o egoísmo da vida alheia com sua desintegração, tampouco eles poderiam cogitar abalar-se por qualquer um. Os outros não possuíam tempo para enxergar a alma do colega; tinham os olhos tapados pelo véu de pressa e indiferença que acomete os habitantes deste mundo. Assim, acabou por padecer num leito solitário. 

Quando julgava compreender e acostumar-se com o incômodo, este parecia piorar no dia seguinte. Até que, num desses casos, onde a cefaleia suavizava-se quase por completo e dava-lhe uma noite de esperança, acordou imobilizado. Não pôde sair de seus lençóis ao amanhecer. Ardia numa febre com espasmos que tornavam aço os músculos, parecia o derreter abafado em sua própria temperatura. Quis ligar para qualquer um mas não pôde: sua força parecia ter sido extraviada para longe de suas mãos e até sua voz falhou. Balbuciava, salivando, definhando sozinho sob a cama úmida pela sudorese inevitável que o acometia. Quedou-se num estado petrificado, impecavelmente estático, sem emitir um mínimo ruído. Quis que aquela dor não o ouvisse e despercebesse sua existência; quis que, ludibriada, sumisse daquele cômodo ao pensar que não houvesse quem incomodar. Sua tática obstinada não funcionou: pareceu favorecer que aquele monstro pusesse as patas em suas têmporas e lhe sugasse, como um vampiro, a atividade cerebral. Tornou a se inquietar, mexendo-se de um lado para outro, sem encontrar posição que o favorecesse. Tentou até levantar, mas não chegou sequer a concluir o ato: seu corpo pesava toneladas incapazes de serem erguidas. Sentia-se enjaulado no aperto de sua própria carne, completamente impossibilitado, absolutamente sufocado numa paralisia invencível. Apesar de comandar seus movimentos, estes não saíam da possibilidade das ideias.

Conformou-se com o mínimo movimento que lhe era possível: o dos olhos. Pôs-se a chorar, num pranto rijo e mudo que trancava sua glote, que mais sufocava que ajudava a desabafar. Era absolutamente impotente àquilo que transcendia qualquer outra enfermidade. Sua cabeça era uma chaga aberta atazanada por moscas carnívoras, entrava em putrefação mesmo em vida. As lágrimas umedeciam a boca seca e trêmula, ele mordia os lábios com um ódio doido que fez sangrar a boca roxa. Todas as outras sensações sob a derme tornavam-se nulas comparadas ao incômodo inigualável que lhe desfalecia. Lambeu com indiferença o sangue carmim e quente que manchava e contrastava com a face fria, e num urro descontrolado, de olhos bem selados, deu, finalmente, voz àquilo que arrastava-o para o inferno: pôs em sua manifestação gutural os resquícios de força que ainda o acometiam e o som da aflição ecoou por toda a casa, por todo o prédio, por toda a rua. O grito trazia uma angústia ímpar, incompreensível por qualquer outro ser; não haviam palavras para aquilo e o brado ressoante e fúnebre era a única vocalização possível. Cessou por falta de fôlego; silenciou-se, enchendo o peito de ar, numa tentativa frustrada de recuperar qualquer sensação restauradora. Nem mesmo seus pulmões trabalhavam bem. O oxigênio parecia mais denso, dificílimo de inspirar. Entreabriu os lábios para facilitar o respirar e tornou a abrir as pálpebras cerradas: teias brancas embaraçadas cobriam sua vista real e tinha no rosto um formigamento, causado pela certeza de uma aranha que movia-se por sua face. Tentou afastá-la, mas o asqueroso bicho parecia saltar pelo ar e voltar a incomodar num lugar inalcançável por suas mãos. Sentia suas pequenas patas passeando e deixando um rastro peçonhento, impregnando-o de um odor fétido que inspirava com nojo. Arfava pesado com a agonia da sensação. Em seus lábios entreabertos, o repugnante aracnídeo chegara e caminhava, sem que ele nada pudesse fazer a respeito; sentiu pequeno animal entrar em sua boca, pousar em sua língua, tão pútrido que o fez, finalmente, vomitar. A asquerosa substância que saiu de si transmutava-se de verde ao violeta e viu nela todos os seus órgãos expelidos em versões reduzidas. Um minúsculo coração, rins, pulmões, tudo minimizado ao tamanho de uma unha. Arregalou os olhos, em pânico. Compreendia cada vez menos. As teias engrossavam e tapavam-no a visão, que logo tornou-se tão somente um plano liso e branco. Já não fazia diferença se abria ou fechava os olhos: o vácuo era o mesmo. Emitiu, neste momento, outro grito; apesar deste sair muito vivo por suas cordas vocais, seus ouvidos já não captavam som algum. O desespero da surdez gerou uma sequência de gritos estarrecidos e indeléveis,  que logo levaram a própria voz à fadiga. No óbito dos sentidos, não houve resolução: o estado carcomeu-lhe o cérebro e levou gradativamente a sua capacidade de raciocínio, até que o homem tornou-se nada além de um corpo mofino cujos sentidos só alcançavam um paroxismo que, de tão intenso, padeceu nele o mais resiliente órgão humano: a alma. Já não existia nada ali que não fosse dor. Concluiu-se a penalidade por uma felicidade criminal: enveredou pelo caminho da loucura.

Arte.


Arte é parto do desejo nato de criar o que há de invisível dentro de cada um. É esse vômito inevitável, essa ânsia voraz e necessária. Necessária, sim. Engana-se quem a diz inútil: a arte é necessária ao extremo. É o dom de vivificar  — e a existência não se basta existência: pede vida. Pede pulso. Pede cólera. Pede paixão. Há na arte tal materialização dos afetos que nos mantém em harmonia com eles: nem nos faltam e nem nos excedem. Equilibram-se dentro do espírito. Viram arte. É deleitável. Bonita. Bela!, mas não por ser estética. A arte é linda porque é humana. E há nesta criatura telúrica o mais misterioso éter, a mais vândala extraordinariedade da natureza. Tão incrível é que torna-se quase impossível, irreal. A realidade é um absurdo. O mundo físico é um delírio e a consciência é uma incógnita fantástica. Não percebe como a vida parece feitiçaria, hipnose, um truque? Pois então criemos arte, que tanto abranda quanto extrema tudo isso que vos digo. 

Galáxias terrestres


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Os dados demográficos me avisam: existem mais de sete bilhões de mistérios a serem desvendados. Incontáveis centenas de cores inéditas a serem observadas. Há em cada cérebro humano um milhão de planetas formando-se, afoitos; possibilidades únicas de vida em cada sinapse. Os nervos são nebulosas em ativação. Emoções são matéria escura em sua impenetrabilidade. Pensamentos têm a luz e o peso de mil sóis. O cosmos habita dentro de cada singularíssima pessoa e manifesta-se, travestido em biologia. Com interesse de astrônomo, divago com ansiedade sobre o que habita o outro. Reduzir-me-ia a um tamanho microscópico e voar para dentro dos pedestres abstratos: quero ouvir todas as mentes mentes, conhecer todos os timbres. Deixe-me possuir suas histórias. Todas as almas me interessam.




The big bang




Tão grandiosa foi a explosão mãe do cosmos que suas ondas ainda ressoam no presente. 

Tanto te amei que ainda hoje sinto teus ecos no atual tempo-espaço de mim. 

Você é meu big bang. A catástrofe necessária. Eu começo em nosso fim.